Ecos de você

Vejo seu rosto quando fecho os olhos, sinto seus dedos firmes nos meus. Encontro você em trechos de livros, nas entrelinhas de textos escritos por desconhecidos. Procuro seus olhos quando encaro outros, aspiro seu perfume que flutua pelos corredores e me perco mais uma vez na sensação dos seus braços quentes me envolvendo por inteiro.
Qualquer palavra remete a outra dita por você; Qualquer coisa a toa lembra algum de seus gostos e todas as situações lembram outras que te envolvem. Para onde quer que eu olhe vejo o seu sorriso, resquícios de histórias, de nossas histórias. Ecos de conversas, trechos de nós. Adormeço pensando em você, te vejo em meus sonhos, e acordo murmurando seu nome.
Ouço música e lá está você preenchendo cada estrofe. Assisto televisão, e você desfila em cada detalhe. Falo com alguém e é a sua voz que me responde. Meus lábios têm seu gosto, e meu corpo estremece com seu calor.
Você preenche todos os momentos, de todos os dias. Cada parte de mim tem uma parte sua, e lhe pertence. Você está incrivelmente presente, de todas as formas possíveis, em significados ocultos, detalhes inimagináveis e ligações inconfessáveis. Você está em todos os lugares. exceto aonde mais importa. Aqui.

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Espera

Aí você espera das coisas, das pessoas. Espera que tudo vá ficar bem, espera uma fala, um reconhecimento. Espera uma mensagem, um sinal de importância. Espera um beijo, espera um carinho. Espera um sonho, espera um amor. Espera um sol, espera um dia. Espera um mês, espera um tempo, espera algo que não chegará, algo que é em vão, algo que está quebrado mesmo antes de sair da prateleira de uma loja da qual nunca deveria ter saído. Uma caixa de surpresas com muitas coisas boas dentro e também muitas ruins, então você vê que não vale a pena esperar, que não é possível e aceitável ficar jogando tempo fora, ficar despejando água fora da piscina. Você entende que não há possibilidades, mas entender e tomar uma atitude são questões diferentes, e que quase sempre se opõem. Enquanto a primeira necessita de tempo, a segunda implora por coragem.

Eu tentei

Tentei lhe manter junto a mim, lhe abraçar com todas as minhas forças. Transmitir em um beijo todos os meus segredos e em  toque todas as palavras que jamais tive coragem para pronunciar. Tentei lhe entender, desculpar e acolher. Relevar suas falhas e ser paciente nos piores dias. Tentei minimizar meus ciúmes. Demonstrar meus sentimentos das diversas formas possíveis. Tentei ver rosas aonde só restavam espinhos.
Tentei esperar sempre o melhor, inclusive quando vieram as primeiras decepções. Mesmo nas últimas eu tentei. Tentei lhe amparar, lhe dar segurança e fazer-lhe sentir amado. Tentei gravar seu perfume na minha pele e seu gosto em meus lábios; Aceitar seus defeitos e amá-los; Tentei ser suficiente.
Mas nada disso foi o bastante. Eu tentei acreditar que você me amava, que formávamos um casal perfeito juntos, que não havíamos nos encontrado por acaso. Tentei me agarrar a cada sorriso seu, a cada gesto, procurando significados ocultos que quase nunca existiam. Tentei gritar o quanto lhe amava, mas as palavras me sufocaram.
Tentei fingir que você não havia me despedaçado, que as lágrimas que cascateavam por meu rosto não eram em vão. Fingir que você se importava. Que havia se importado um só dia que fosse. Tentei guardar nossos momentos bons, mas era impossível. Todos eles haviam sido manchados por tristes tintas de cores escuras, marcas permanentes do que deu errado entre nós. Tentei, em noites vazias e inacabáveis,  responder aos tantos porquês que me tiravam o sono.
E por fim, tentei esquecer. Apagar. Arrancar, não me importar. Tentei ignorar aquela dor que sentia tão frequentemente, a cada vez que algo me fazia lembrar você. Tentei me livrar da culpa, da sensação de impotência, da vontade de lhe ter aqui.
E depois de tudo isso, fracassei mais uma vez. Pois tentei escrever um texto enorme falando de meus sentimentos, um lindo poema que lhe apertaria o peito e faria seu coração bater mais rápido, mas só o que me vem na cabeça é uma única frase, límpida e cristalina como o vidro:  Não desista de mim.

Agente desencadeador

Ouço lá fora o barulho dos trovões, e o mesmo se reflete aqui dentro de mim. Pode-se ouvir altos estrondos enquanto tudo desaba. Enquanto tudo parece estar acabando, sem que sobre qualquer pedaço para ficar marcado na história. Ondas gigantes ameaçam invadir tudo. Levar para longe tudo aquilo que há de melhor, e tudo aquilo que há de pior também. Se ela levasse somente o melhor, e deixasse algo com o que poder voltar a reconstruir, recomeçar, seria aceitável. Mas ela engole tudo, das maiores pedras até as pequenas flores. Arrasta. Destrói. Rasga e suja. Pinta um horrendo quadro do qual as cores jamais sairão, por mais que alguém o pinte e repinte.

 

Há também o fogo, que lambe tudo em chamas. Chamas que se erguem em uma altura inalcansável, inatingível. São chamas que nem a maior reserva de águas conseguirá apagar. Talvez dê para se perguntar: mas, como saber se algo não é possível até tentar? Explicação fácil. Além de ondas, ventania e fogo, há também chuva. Uma torrente que escorre. Ritimada e insessável. Uma chuva que lava. Desespera. Sufoca. Acelera. Dói.

 

E toda essa enorme tempestade é criada por um úniico agente desencadeador. Um agente capaz de mover tudo. Modificar irrevogavelmente e acabar com pedaços em definitivo. Esse agente é comumente chamado de amor.